terça-feira, maio 17, 2005

Uma experiência de Teatro

Não sou grande fã de teatro. Não costumo ir. As razões pelas quais não vou são estas: os bilhetes são caros; prefiro ir ao cinema; e as poucas experiências de teatro que tive não foram nada motivadoras. Aprofundando esta última razão, relato a minha última ida ao teatro na semana passada. Mas antes explicito as razões pelas quais ainda vou algumas vezes ao teatro: oferecem-me bilhetes, ou são peças de amigos às quais a um laço forte de amizade me compele a apoiar. São estas as principais razões pelas quais vou ao teatro. Mas voltando à minha experiência da semana passada, que alimentou a minha falta de motivação para ir ao teatro. A peça era de um amigo. Ou melhor o amigo faz parte do grupo de teatro que representava a peça. Por isso, a nossa presença seria um gesto de pura amizade. O local não era um teatro comum, nem fora do comum, pois não era um teatro e sim um prédio. Chegámos com alguma expectativa. Não nos foi permitido sentarmo-nos nos nossos lugares, por isso ficámos na porta do prédio. A minha estranheza em relação à peça começava a emergir. A estranheza aumentou vertiginosamente quando de repente começamos a ouvir gritos de uma discussão acesa que vida do último andar do prédio. Eis quando uma das actrizes vem junto de nós declamar umas quantas frases que dada a estranheza da situação não consegui reter, quanto mais compreender. O público, cerca de uma dúzia de pessoas, ia subindo as escadas do prédio lentamente respeitando os diálogos da actriz que eu esforçadamente não conseguia entender. Mas acalmei a minha inquietação, pois com certeza seria a situação caricata que me traía a concentração. Chegados ao último andar a actriz que nos tinha vindo a guiar, com um par de sapatos velhos nos braços, tentava agora entrar numa casa através de gritos e pancadas mas era impedida por alguém do outro lado. Bom, esta situação continuava e nada da minha concentração permitir-me perceber o que quer que seja da peça. Estava a ficar irritada. Depois de umas quantas tentativas entrámos na casa e ficámos rodeados pelo resto do elenco. Só actrizes. Uma fazia uns rabiscos de carvão num desenho na parede enquanto declamava mais umas frases. A outra deitada no chão permanecia imóvel. Nós ali no meio, completamente encavacados tentávamos agir o mais naturalmente possível. Lá percebemos que as poucas cadeiras encostadas na parede era para nós. Não vou descrever toda a peça. Não vale a pela. Pois apenas posso descrever as acções, visto que o sentido e a mensagem não consegui reter. As poucas ilações que fiz, temo a afirmá-las, pois devem confirmar a minha estupidez para interpretar peças de tão alto nível intelectual. Mas sinto uma necessidade imensa de exprimir esta minha insatisfação. Seria aquilo compreensível? Ou o objectivo de compreender é só para alguns? E esses alguns têm o quê de especial para lhes permitir a compreensão? É claro que a arte não tem de ser do gosto de todos, mas pelo menos acho que deve de permitir uma certa leitura e compreensão, mesmo que seja diferente da do próprio autor. Eu estava perdida naquele cenário. Gritos e sons ensurdecedores acompanhados por alguns sons pouco harmoniosos de uma guitarra eléctrica; diálogos dispersos que pareciam ser apenas monólogos intercalados sem relação aparente; frases repetidas que pareciam deixar uma qualquer mensagem que eu não conseguia perceber; e ainda por cima olhavam o público nos olhos e interagiam com ele; seria aquilo para rir ? Chorar? E eu que não percebo, não ouvem? Eu não percebo? Que é que aquilo quer dizer? Um pai, uma filha, que saltaram, numa praia em Sesimbra, cuja amiga morreu e precisa de escolher roupa, num país fútil e pobre, onde alguém amontoa sapatos num canto da sala.... Desisto. E desisti a meio da peça. Deixei-me permanecer imóvel. Tentei compor uma posição que revelasse o meu enorme interesse. E assim permaneci. Não me apercebi foi que quando saí trazia dentro de mim sentimentos de raiva e incompreensão que ainda hoje tento digerir. O mal será meu?